

![]() O primeiro trauma, a gente não esquece.
Era meados da década de 60, mais precisamente, o ano de 1965, eu, sete anos de idade, na primeira série do primário. A escola, o Grupo Escolar Professor José Freire. Fervia naquela época os “Western”, traduzido, os “Faroestes”, exibidos em todos os cinemas, e principalmente, na gênese da televisão brasileira. Eram filmes vibrantes, lindos cenários, excelentes artistas, tramas inesquecíveis e muita ação, tudo ainda em preto e branco, atiçando e aguçando a nossa imaginação. Quantas vezes fui Adam Cartwright, outras o Little Joe, “O homem de Virgínia”… eram tantas séries que nos prendiam a atenção e muitas lições também, a nos ensinarem o lado certo das tramas do cotidiano. Contextualizada a época, passo a descrever, a minha primeira desobediência, minha primeira ousadia, as razões do meu ato, que por sinal, já elenquei acima suas cruciais justificativas. Tantos anos se passaram e eu teria que fazer uma profunda pesquisa, para cravar as datas com precisão, mas vamos ao mais importante, os fatos. Com certeza era no turno vespertino, a primeira parte do primário ocorria à tarde. Era um dia normal de aula, quando de repente, a diretora vai em cada sala de aula anunciar que, no Salão Paroquial da Igreja Nossa Senhora de Lourdes, seria exibido um “faroeste”, para toda a escola. A notícia explodiu todos nós de alegria indescritível, cantávamos, batíamos palmas, aquelas coisas de crianças extasiadas, saindo da rotina, e gente, assistir um “farwest” de graça… saímos entusiasmados, em fila indiana, pelas ruas do bairro Francisco Bernardino, até a igreja local. Que festa! Foram entoadas quase todas aquelas cantigas infantis, durante o trajeto. Que felicidade! Só faltaram as bandeirinhas do Brasil, também muito comum na época. Aproximava-se a igreja, aumento de expectativa, eram as quatro turmas do primário, da primeira à quarta série juntas, uma euforia sem igual. Adentramos o átrio. Ao acessarmos o corredor, do qual avistávamos a entrada do salão paroquial, qual cena eu consegui visualizar? Pasmem! Enfermeiros vestidos a caráter e as primeiras crianças levantando a manga da camisa. Imediatamente aquilo me congelou, fiquei transtornado… Vacina! Injeção! E a alegria simplesmente esvaiu-se daqueles rostos, uns chegavam a chorar, aumentando ainda mais a minha indignação. Comecei a pensar em como burlar aquela realidade e não via como. Já tão decepcionado, resolvi não tomar a vacina, mas não via como sair da fila, estavam fiscalizando geral. Então tive uma ideia que não podia falhar. Percebi que havia um algodão que colocavam no lugar onde ocorriam as picadas da vacina e que quem estava com aquele algodão no braço estava liberado, já perceberam a minha astúcia? Um coleguinha passou por mim e jogou o algodão dele fora, eu o catei de imediato e passei a usá-lo no braço, como se já tivesse tomado a vacina. Passei perto dos enfermeiros e das professoras e ufa! Estava livre daquele aparato que nos enganou. Além do mais revoltante ainda, não foi passado filme algum. Bom, e as consequências? Agora é sério, além da frustração, um tremendo trauma que me acompanha até hoje, o terrível medo de injeção. Assim é a vida da gente, injeções doem, no meu caso, a ponto de eu me empalidecer, de tanta aversão, mas por outro lado, ninguém toma injeção para piorar, sempre sabemos que elas são necessárias. E na vida, dores, decepções amargas, as perdas inesperadas, geralmente são os nossos “merthiolates”, famosos também naquela época e até hoje… aqueles remédios amargosos, o que hoje, compreendo serem as injeções de Deus, para nossa melhora, nossa reforma íntima e evolução. Nada nos será tempo perdido, nada nos é em vão, nós é que ainda não somos capazes de perceber os planos e a vontade de Deus, sobre as nossas vidas e que tudo, da inércia às peripécias, terão sempre os seus propósitos. (RAS)
Enviado por (RAS) em 15/06/2026
Alterado em 16/06/2026 Comentários
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