(RAS)

Nem tudo que reluz é ouro. (Mas reluz!)

Textos

A acepção da palavra.

 

     Ao longe ouço, e chama-me a atenção, o ladrar alegre e insistente de uns cachorros. Pelo timbre do latido, deduz-se serem cães vira-latas. Desloco-me até a janela do meu quarto e ponho-me a observar um barraco, qual túmulo, cuidadosamente caiado e branquinho, o lindo bangalô... O acesso é uma escadaria íngreme onde o dono, no início da via-crúcis, sobe com sacolas de compra, mas nem sempre as sacolas sobem juntas, nem sempre lhe sorri a vida.
     Os amigos, esses sim, depois de Jesus, são os que merecem tão digno vocativo, latem e, freneticamente, balançam as caudas. E assim o fazem todos os dias. Parece que não veem o dono há séculos. Uma visão que impressiona, encanta e faz refletir. Quanta simplicidade! Quanta felicidade! Quanta sinceridade!

     O dono, mesmo sabendo o quadro que o espera no interior do barraco, passa a mão e acaricia aqueles que, independentemente de tudo, sempre o receberam bem.

     Quando na minha pouco aquinhoada infância, em minha casa sempre havia um cachorro ou um gato, ambos comumente em coexistência pacífica. Cachorro não faltava no derredor, na vizinhança. Então passei a vida me perguntando: Por que o pobre gosta tanto de um cão? E após presenciar a emblemática cena, eu entendi, afinal, quem na persistente carestia, faria festa para tão desinteressantes chegadas?

     Porque só quem não tem nada sabe o valor de quem te recebe como se você fosse tudo.

(RAS)
Enviado por (RAS) em 14/08/2015
Alterado em 19/06/2026


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